O Deformante


Texto enviado para a Folha de S. Paulo:

“No último domingo, Simonal foi, mais uma vez, julgado e condenado. Desta vez, pela Folha de São Paulo, numa matéria sensacionalista e exageradamente grande (com destaque na primeira página e tudo), assinada pelo “jornalista” Mário Magalhães.

Foram diversas páginas, todas provocadas pela “descoberta de um fato novo”, um documento inédito que provaria de maneira cabal e definitiva que Simonal era um informante do DOPS.

Simonal está morto há quase 10 anos. A Lei de Anistia tem uns 30. Mas o “fato” era tão importante, que por si só justificava não só a “reabertura do caso”, mas também provava “por A mais B”, que o cantor era mesmo um dedo-duro juramentado. Afinal, no tal documento inédito, o próprio Simonal assumia suas ligações pra lá de perigosas.

Então tá ! Só que existem alguns probleminhas no “raciocínio” do “jornalista”.

Em primeiro lugar, o documento inédito não é inédito. Ao tentar se defender da acusação que teria sido mandante do seqüestro do seu ex-contador, Simonal (orientado pelos seus advogados, segundo depoimento da própria vítima, no documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, meu, de Micael Langer e Calvito Leal) afirmou que havia prestado queixa anterior de supostas ameaças terroristas e, por isso, tinha pedido que o DOPS investigasse.

O que o tal documento usado como base na imensa reportagem do caderno Mais diz é, mais ou menos, isso: Simonal tenta tirar o corpo fora do imbroglio policial que se meteu, dizendo que era alvo constante dos subversivos, porque ele simpatizava com o regime de 64 e acreditava que o DOPS poderia ajudá-lo, já que aquele órgão também atuava no meio artístico, à procura de opositores, etc e tal… por isso, ele emprestou o seu carro (um Opala) para a ajudar nessa “operação”.

Nosso documentário, inclusive, exibe duas matérias, publicadas pela grande imprensa da época com as manchetes “Terror ameaça Simonal” e “Simonal se diz de direita e com bom serviços prestados à Revolução”.

Quando fui procurado pelo autor da já citada reportagem (“O Informante”), seu tom era grave. Ele havia descoberto documentos, tinha tido acesso a mais de 600 páginas, lido vários depoimentos que acusavam Simonal e, o mais importante, num documento (o tal) anterior ao caso do seqüestro de Rafael Viviani (o contador), o “Rei da Pilantragem” assume que tinha vínculos com o DOPS.

Respondi que conhecia direitinho as tais 600 páginas, já que possuo cópias do processo inteiro há mais de 5 anos e que não lembrava mesmo de nenhuma menção com data anterior ao seqüestro. Mário, com a maior cara de pau, me afirmou que o documento foi lavrado às 15 horas do mesmo dia em que Viviani seria seqüestrado (às 23 horas).

A princípio não entendi. Disse pra ele que, exatamente, pela coincidência do dia, isso provaria o oposto. Que o tal depoimento comprometedor tinha a maior cara de ser meio “construído”, ser alguma espécie de álibi, de história de cobertura. Simonal, pra dar coerência à sua linha de defesa, apresenta uma queixa dada anteriormente (que também poderia ser “fabricada a posteriori”). Ou seja, o tal documento não é anterior ao caso do seqüestro, ele é parte tão fundamental do mesmo que o próprio Simonal o divulga, na grande imprensa, em 1971.

Também perguntei ao “jornalista” já que ele estava tão interessado nos aspectos jurídicos do caso, se ele não tinha lido o arrazoado do Juiz ao proferir a sentença que condenou Simonal. Em sua argumentação final, o ilustre meritíssimo alega que não tem como julgar os agentes do DOPS, já que estávamos vivendo um estado de exceção e, por isso, ele não tinha competência para julgar atos que poderiam ser de “segurança nacional”, mas Wilson Simonal, que era civil, não tinha esse tipo de “cobertura”, portanto pena de 5 anos e 4 meses pra ele.

Essa questão não seria um pouco mais intrigante para um jornalista ? Se Simonal pertencesse, de fato, a algum mecanismo de repressão em plena “Era Médici”, porque ele não teve nenhuma proteção ? Seu caso foi o único processo que envolveu agentes do DOPS, tortura, prisão ilegal, que saiu em toda mídia da época. No período de censura mais dura, Simonal apanhou sem ser socorrido. Para um cara que era “amigo dos hômi” ele não foi uma presa fácil demais ?

Lendo os depoimentos do processo, testemunhos de defesa e acusação no julgamento, fica-se com a nítida impressão de uma grande confusão, uma vendeta boçal que degringolou. O improviso e precariedade das argumentações servem mais para provar a grande quantidade de estupidez envolvida, do que para jogar luz em possíveis ligações políticas bizarras.

Exatamente, por acharmos que esse era um terreno pantanoso demais para semearmos certezas, que no nosso documentário, nesse momento do julgamento e das acusações policiais, passamos para uma montagem mais fragmentada, mais confusa. Nunca quisemos julgar. Nunca nos motivou conseguir a redenção, nem provar a culpa do ex-ídolo nacional. Nunca tivemos certeza onde íamos chegar. Apenas seguimos as pistas.

Procuramos, achamos e demos voz, pela primeira vez, a Rafael Viviani. Apesar do “jornalista” ironizar o fato que achou com muita facilidade o contador (se era tão fácil porque o contato só foi feito 5 anos depois que nós o encontramos ?), fomos nós que o ouvimos com todo respeito e também fomos os únicos a mostrar que Simonal tinha, realmente, cometido um crime bárbaro, uma violência condenável.

E ele foi condenado. Merecidamente. Por esse crime.

Mas a argumentação fajuta, citando promotores e juízes (e depois desmentindo en passant centenas de linhas depois) que, na época, a justiça aceitou as provas que ele era informante ou colaborador é outra enorme cascata. Só pra explicar, Simonal não poderia ter sido condenado por ser informante, simplesmente, porque isso não é crime. E mais, se em 1971 fosse provado que ele era um colaborador, ele não seria julgado por isso, seria condecorado.

Mas veio a anistia, né? Já passaram uns 30 anos. Pois é, mas a lei só vale para um lado, não é verdade? Para os amigos anistia e indenizações, para os inimigos (os que não forem aliados de ocasião) a danação eterna.

Nosso filme nunca teve como ponto de partida, nem de chegada, essa questão mais óbvia. Nossa (dos diretores) melhor pergunta nunca foi se ele era ou não era dedo-duro. Preferimos outras.

Por que um “crime” (delação), que além de não ser crime e de ser, praticamente, impossível de provar, não prescreve nunca? Por que, depois de décadas, de esquecimentos, perdões e mudanças de conjuntura a pergunta que todos fazem é “ele era ou não era”?

Não fica meio subentendido que “se ele fosse” então era merecedor de tudo e muito mais? Delatar é a coisa mais imperdoável que um ser humano pode fazer?

Além disso, naquela época a luta era, realmente, entre Democratas X Autoritários? Os que queriam pluralidade, diversidade de opiniões, liberdade de expressão não eram, na verdade, minoria? No espectro político-ideológico da época quem, ao alcançar o poder, não queria prender e eliminar opositores? Quantos, em nome da luta contra a ditadura, tinham seus próprios projetos totalitários e defendiam com ardor (além de posters e camisetas) genocidas de vários calibres?

E voltando ao velho Simona e a questão dele ser um famigerado colaborador da ditadura. Era, realmente, justo se esperar que um negro, pobre, favelado tivesse a mesma percepção de “anos de chumbo”, quanto alguém com formação universitária, classe média alta, etc e tal?

Ditadura é quando são caçadas liberdades individuais, quando o estado policial invade domicílios, dilacera famílias, prendendo e barbarizando ao seu bel prazer? Pra quem é preto-pobre-favelado isso é sempre. Isso é hoje. Como entender que a pior época do país é, justamente, quando se possui as maiores liberdades individuais que já se teve na vida?

Algumas (poucas) pessoas (entre elas, o “jornalista” Magalhães), nos perguntaram, desconfiadas, qual era a nossa “real” motivação, por que falar desse caso? Sempre respondemos: “por que não falar ?”. Sempre acreditamos que tínhamos descoberto um tesouro: uma grande história, praticamente inédita. Portanto, precisávamos contá-la. Por isso, procuramos depoimentos antagônicos, checamos fontes, pesquisamos anos, levamos mais de 40 semanas editando. Trabalhamos duro, mas fizemos um bom filme. E, de quebra, fizemos também jornalismo de verdade.”

Claudio Manoel (produtor e diretor do documentário: Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei)

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  1. #1 by Lécio Oliveira at June 23rd, 2009

    Parei de ler o texto no primeiro “jornalista”.

  2. #2 by Paulo Bruno at June 24th, 2009

    Afinal, qual é a real intenção desse filme?
    Seus criadores querem ou não “resgatar a imagem” de Simonal? Querem ou não afirmar que Simonal foi vítima de perseguição?
    Acho que seus criadores (produtores e diretores) deveriam deixar isso bem claro, mas sempre que leio/escuto algo deles, fico com a sensação de todos estão em cima do muro.
    Eu vou dar minha opinião, Simonal não teve a carreira prejudicada por conta de perseguição de esquerdistas (isso não seria possível naquela época, ditadores interferiam em rádios, gravadoras e etc.), muitas carreiras acabaram da mesma forma. Procurem saber sobre algum artista sem repertório próprio que sobreviveu (com público) naquele período da música nacional.

  3. #3 by Arnaldo at June 24th, 2009

    O ônus da culpa cai sobre o Pasquim – um jornal onde, além do Jaguar e do Ziraldo, também escreviam Ivan Lessa, Millôr, Paulo Francis – eles também estavam nesse esquema de apoio a projetos totalitários?

    Delação não é crime. Outra coisa que não é crime é um goleiro levar um frango – e no entanto, Chico Anysio é autor de uma frase infeliz sobre Barbosa, outro cara que nunca foi, digamos, anistiado: “não confio em goleiros negros” – esse é o sujeito que vocês usam pra falar em injustiça no caso do Simonal?

    Tem mais coisas para comentar, mas pra mim o problema é que esse documentário – que adorei, e recomendei a rodo – está sendo usado por muita gente para trocar um linchamento moral por outro.

  4. #4 by Tiago Mesquita at June 24th, 2009

    O erro do filme, da matéria e de tudo mais é supor que o sucesso do Simonal acabou por isso. Uma porção de apoiadores do regime continuou a fazer sucesso. O Simonal gravou músicas até do Chico Barque depois do episódio e sua carreira não foi mais para frente. Acontece

  5. #5 by Vivi at June 24th, 2009

    Este é o tipo de discussão que me faz ter certeza do caráter da imprensa brasileira, qual seja o de rearranjar idéias para polemizar e vender, sem nenhum compromisso ético e mesmo lógico. Se a idéia vai vender mais jornais abrem mão da coerência…
    E o pior de tudo é que “montam” e exploram o sucesso alheio.
    É MUITO ESPÍRITO DE PORCO.

  6. #6 by Renato Rodrigues da Silva at June 24th, 2009

    Muita conversa para nada. Simonal era dedo-duro ? Talvez, mas tb havia centenas de guerrilheiros de esquerda matando, explodindo bombas e sequestrando. Esta gente não foi anistiada, a ponto de uma delas ser quase candidata a presidente ? Simonal tb tinha que ter sido.

    Agora, com certeza, se ele não era dedo-duro, simpatiza com o regime. Basta ver as declarações que ele andou dando para a Folha em 82.

    E quando o filme vem para a Baixada Santista ?

    Renato

  7. #7 by Jayme at June 24th, 2009

    De fato, o jornalista entre aspas é desrespeitoso, até porque não se justifica quando se lê a matéria do Mário Magalhães. O que ocorre é que é preciso mostrar os fatos como são, e isso é tudo o que o jornalista, sem aspas, fez. Simonal escorregou na história. Mantinha relações com gente da pesada da “comunidade de segurança” (“O delegado Sérgio Fleury é meu grande amigo” foi por acaso uma declaração inventada por Magalhães?). Cometeu um crime (como você mesmo admite) bárbaro. Ter vindo da favela não é atenuante. Em última instância, a pena acabou reduzida a três meses de prisão, cumpridas em liberdade. Influência do regime? Há indícios de que sim, na própria matéria da Folha. A questão que se deve colocar é: Simonal era um grande cantor, não há nenhum problema em ouvi-lo hoje, passado o calor da hora da ditadura. Mas escorregou na própria casca de banana. A qualidade musical aos poucos o resgatará, como está resgatando. Mas não dá agora pra tentar pintar um cara bonzinho sobre a imagem dele, só porque Simona cantava (muito) bem. Quanto ao número de páginas dedicadas a Simonal na Folha, vc, Claúdio, deveria tomar como um elogio. Seu (ótimo) documentário trouxe o cara à pauta novamente.

  8. #8 by Luís Felipe Barbedo at June 24th, 2009

    Eu, que sou leigo no assunto, já sei o quanto a Folha tem rabo preso com o período da ditadura, o que a levou há alguns meses a usar o termo “ditabranda” para diferenciar o governo militar brasileiro de tantos outros latinos ou do leste europeu.
    Li a primeira página do jornal de domingo e nem me interessei em ler o resto pela simples confirmação de que a Folha é um jornal vendido e não merece o menor crédito em relação a esse assunto.

  9. #9 by Luís Felipe Barbedo at June 24th, 2009

    Quanto às pessoas que acham que Wilson Simonal perdeu seu sucesso por mera fatalidade, precisa ver o filme novamente, para ver que essa ideia de que ele foi abafado faz parte do discurso de todos os músicos e produtores musicais que viveram na época e não somente uma tese do cineasta.

  10. #10 by Renato Rodrigues at June 26th, 2009

    A magia deste filme, foi trazer para muitos, como eu, a oportunidade de conhecer o tralhabo do Simona. Que só fui conhecer casualmente, anos atrás, como trilha sonora de um programa esportivo. Que colocava a musica “Vesti Azul” ao mostrar o time do São Caetano.
    Espero, e torço muito, para que suas músicas sejam tocadas nas rádios, TV, filmes e etc. Para que todos possam ter o prazer de escutar uma boa música. Que é o que ele sabia fazer!
    VIVA SIMONA

  11. #11 by Pedro Gabriel at June 26th, 2009

    Amei o documentário. Ficou claro que ele cometeu um crime bárbaro; não ficou claro a duração da perseguição da mídia, porém, ficou clara a intolerância do meio artístico e a enorme dificuldade de se perdoar um artista, por parte do público – o mesmo não ocorre ao perdoar-se políticos ou os próprios jornais que vinculam matérias mentirosas. Na minha opinião, o jorná que escrê essa matê, é um debí, afinal, chutar cachô môr, é fá!

  12. #12 by Claudia at June 29th, 2009

    Acredito que o criador tem que manter distância da criação, que passa a ser vista como um filho, do qual se conhece os defeitos mas se perdoa, … afinal foi criado com tanto sacrifício, tanto carinho, …
    Parece que os produtores se envolveram na história e tomaram partido. Mas não mostraram isso claramente no filme.
    A única coisa que me pareceu muito falsa no filme foram as declarações daquela senhora que se diz esposa dele. Não sei, algo me diz que, … sei lá, não gostei da sensação que senti ao vê-la (nem a conheço, nunca tinha visto). Mas me intrigou, manchou o documentário, …

  13. #13 by Douglas at July 4th, 2009

    manchou o documentário… essa foi muito boa… Cláudia o seu comentário me instiga a comentá-lo. pois documentário é isso mesmo ele deve ser manchado pelas pessoas. E que incomode mesmo, a vida é isso, nem todos nos agradam, nem todos nos convencem. Agora erro seu acreditar que o documentário em sua assertiva deveria convencer melhor. Tem elementos suficientes pra que essa tarefa fique conosco, vc tira suas próprias conclusões assim como ele me convence da saga inescrupulosa por qual passou simonal nas mãos da imprensa…. que continua, como dá o exemplo o “jornalista” da folha de são paulo.
    E manter distância da criação, que noção defasada do trabalho artístico. Talvez vc goste daqueles documentários da Discovery Channel, “tão imparciais”, que revelam a ultra-verdade sobre povos exôticos ao se manterem distantes deles… kkkkkk.
    Mas voltando a mancha (muito boa). Aquela senhora, ajudou a manchar o filme… assim como o contador também deu uma manchada naquilo que eu queria acreditar sobre simonal… Fazer o quê é a vida, mas logo mais vou no shopping comprar comprar alguma disco sobre esse tal de Simonal. Cara Sensacional. Descanse em paz Mano Black!!!!

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