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Entrevista com Simonal na Folha em 1999

Achei essa contundente entrevista do Simonal para a Ilustrada há exatamente 10 anos, 11/05/1999, em matéria do Pedro Alexandre Sanches. Bem interessante!

Proscrito, Simonal tenta cantar em SP

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Reportagem Local

Há um show na cidade neste fim-de-semana. Quem faz o show é um proscrito. Carioca “do subúrbio”, Wilson Simonal, 61, é em música o braço à direita do extremismo político do Brasil militar. Enquanto os centros galgaram o poder, os extremos -Simonal de seu lado, Geraldo Vandré à esquerda- experimentaram o expurgo, sumiram da vida nacional. Simonal reaparecer e buscar nova brecha dá oportunidade de lembrar o pó que cultiva ácaros debaixo do tapete, de uma história pop desviada de parâmetros quaisquer. Egresso do grupo de influência do “agitador cultural” Carlos Imperial -como Roberto Carlos-, foi crooner e membro de banda de rock até se vincular, em termos, à bossa nova. Optou por aderir artifícios populares às complicações harmônicas do estilo. Ao mesmo tempo em que acendia o farol de pioneiro na música negra brasileira, se esquivava de identificações imediatas com samba, soul ou funk.

Fincando sucessos nacionais como “Meu Limão, Meu Limoeiro” (66), “Sá Marina” (68) e “País Tropical” (69), tornou-se artista dos mais populares do Brasil pré-festivais da canção, comparável, provavelmente, apenas a Roberto Carlos. Adquiriu prestígio popular, dinheiro e poder. A história toda ruiu sob episódios ainda hoje nebulosos. Acusado, em 1971, de sequestrar e torturar, com dois agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), um ex-funcionário que supostamente o roubara, em 1974 foi condenado a cinco anos de prisão -ficou preso por uma semana e foi libertado por habeas corpus. No processo, foi caracterizado como colaborador do regime -numa época em que o regime ditava tudo. O delegado que presidiu o inquérito afirmou: “Ele me disse que trabalhava para os órgãos de segurança e o Dops. Como fez essa declaração em cartório, mandei que ela constasse em seu depoimento”.

Hoje, Simonal nega tudo e brande documentos mais ou menos recentes expedidos pelo Ministério do Exército e pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, que atestam que nada consta em arquivos de órgãos federais sobre suas supostas atividades de informante. A tarja de “delator” colou-se a ele, no entanto, e sua carreira entrou em declínio. Vive, hoje, de gravar esporádicos discos independentes -e, só no exterior, um CD pela Sony- e fazer shows modestos em casas pequenas. Visível de novo devido à minitemporada no teatro Crowne Plaza, falou à Folha no flat em que mora, na zona sul de São Paulo. Leia trechos a seguir.

Folha – Como você começou a cantar?

Wilson Simonal – Comecei como crooner, foi assim que me destaquei. Estudei em seminário, onde aprendi a cantar nos coros, em latim. Depois, no Exército, era eu quem ensinava os hinos. Eu tinha ouvido, era fácil.

Folha – O período de Exército influenciou sua carreira? 

Simonal – Acho que sim. Ali aprendi a ser disciplinado, a respeitar hierarquia. Dei baixa como sargento e fui ser crooner. Tinha que cantar de tudo. Hoje existe essa burrice de rotular fulano de sertanejo, pagodeiro. Intérprete é quem canta qualquer coisa. Essas categorias não partem do povo, que é muito mais aberto e inteligente que os “eugênios”, como eu chamo. Os “eugênios” estão na imprensa, na publicidade, nas gravadoras, nos serviços de informação. Não convivem com o povo. Os que pregam a chamada democracia entre aspas nem sabem o que é isso. São os mais autoritários, não aceitam o ponto de vista de um terceiro. É “coco wash”, lavagem cerebral. Dizem que a Globo tem a maior audiência, isso é mentira. A Globo toca pagode, axé, você passa a acreditar. É “coco wash”. Não é que o povo não goste de música clássica, é que não tem grana para ir ao Teatro Municipal. Quem vai ouvir música clássica no Ibirapuera é o povo, bacana não vai.

Folha – Por que você não se tornou um sambista ou um representante do movimento black?
Simonal – Nunca tive pretensão de criar um movimento black. Nunca entrei em estereótipo. Não tinha rastafari, “mama África”. Sou brasileiro, não sou africano. Não tenho nada contra quem gosta de se vestir como índio africano, mas me influenciei vendo os artistas negros americanos, elegantes. Sou cantor e canto samba muito bem. Mas gosto da música harmônica. É biológico, sou arranjador. Toco piano, trompete, violão. Gostava de jazz, me identifiquei com a bossa nova. Mas era feita por gente de classe média alta, e eu morava em Areia Branca. Nara Leão cantando é bacana com champanhe, mas no subúrbio a forma de participação é diferente, mais malandra. Fui o único que gravou bossa nova com orquestra, big band. Me acham pretensioso, mas esse pagode atual é todo igual porque não há esse trabalho. Arranjador e intérprete não ouvem um ao outro. A culpa é dos produtores fonográficos, que não estão interessados em criar, mas em copiar.

Folha – Os “eugênios” o aceitavam?
Simonal – A grande maioria nunca gostou, eu estava fora do padrão. Era um negro que falava dois idiomas, falava direito, apresentava programa de TV. Quem entendia de música me respeitava, Tom Jobim era meu fã. Mas eu gravava “Meu Limão, Meu Limoeiro”, sabia que era uma merda. Não se pode dizer que é música. Tinha umas cascatas, mas vendeu pra burro.

Folha – O sucesso o deslumbrou?
Simonal – Não. Me chamaram de pretensioso, preconceituoso, arrogante, folgado. Houve racismo, porque eu andava em bons carros, casei com uma mulher loira.

Folha – O caso de Jorge Ben era parecido, mas não aconteceu o mesmo com ele.
Simonal – Mas ele nunca chegou ao patamar em que eu cheguei, de botar 30 mil pessoas no Maracanãzinho, ensaiar o “Hino Nacional” com elas. Eu passei a ser uma pessoa perigosa, por causa do sucesso.

Folha – Como era a sua relação com os artistas que surgiram pouco depois de você – Chico Buarque, os tropicalistas?
Simonal – Convivi mais ou menos com Guilherme Araújo, que era empresário dos tropicalistas. Quando bolaram a tropicália, ele me convidou para participar e eu não quis. Era fora do meu espírito. Chico tinha o mesmo empresário que eu. Convivi com ele e Caetano no programa “Esta Noite Se Improvisa”. Era tudo brincadeira. A gente combinava antes, Chico roubava muito. A platéia me assoprava. Eu roubava tanto que o pessoal ligava para a TV reclamando.

Folha – Seu disco de 67, “Alegria, Alegria!!!”, é anterior à música de mesmo nome de Caetano, não?
Simonal – Sim, isso era um bordão que eu usava no meu programa de TV. Ele fez a música, depois eu também gravei. Olha, o que neguinho me copiou… Quando eu fazia show, levava Elis para cantar comigo como convidada. Ninguém sabia quem era ela, e eu estava meia bomba, mas bomba a favor. Eu a trouxe para fazer meu programa, então perceberam que dava negócio um negão cantando com uma branquinha. Eu já tinha meu programa, então sugeri Jair Rodrigues para fazer o programa com ela, apesar de que ele não tem nada a ver com ela.

Folha – Porque em 70 você trocou a Odeon (hoje EMI) pela Philips (agora Universal)?
Simonal – Fui seduzido por um sujeito que veio para ac
abar. (Silêncio.)

Folha – O André Midani (então diretor na Philips)?
Simonal – (Silêncio.) Acabou a qualidade da música, até mesmo do pessoal bom, Gil, Caetano, que eram da Philips. Vê o que eles fazem hoje, por interesses de fora. Quando você começa a competir com o poder econômico de fora, mela. “Mela esse cara”, porque atrás de mim vinha gente. O que é bem feito incomoda lá fora. O que fiz foi abrasileirar as coisas de fora. Vêem que o “filho da puta” está se infiltrando ali, dizem “não pode”. Vender mais discos no Brasil que os Beatles é fogo. Eu vendia mais que todo mundo, tropeçava e nego batia palma. Fui perseguido por agências de publicidade. Quando fui fazer propaganda da Shell, ganhando grana pesada, comecei a ter problema com a Standard, uma agência de publicidade de origem americana. Abri uma firma própria. Aí se uniram todos, “vamos sacanear esse filho da puta”. Se todo mundo começasse a abrir agência, acabava o monopólio que mandava no Brasil. Continuei gravando letras fortes, mas o rádio parou de tocar.

Folha – Você dá a entender que parou de tocar por razões econômicas. Não foi por razões políticas?
Simonal – Também, mas Chico Buarque tem problema político? Por que ele não toca?

Folha – Tem respaldo de mídia, como Caetano, que toca no rádio.
Simonal – Caetano não é mídia. É grana, Toninho Malvadeza. Coincidentemente, foi no episódio com as agências que tudo aconteceu.

Folha – O que aconteceu?
Simonal – Não houve problema nenhum. O contador realmente me roubava. Tinha gente junto com ele, o João Carlos Magaldi, que era colado da Standard. Quando fiz a Simonal Comunicações, fui roubado pelo Magaldi junto com o contador. Magaldi (já morto) foi padrinho de casamento do Boni. Por isso não toco na Globo.

Folha – Você não toca por isso ou por causa da pecha de delator?
Simonal – Tenho esses documentos que reconhecem e provam que nunca fui informante. Os jornais não publicaram isso. Que medo é esse? Quem inventou tudo isso? Ninguém tem prova.

Folha – Os documentos só dizem que não há registros, não que os fatos não tenham ocorrido.
Simonal – Se acontecesse tinha que estar registrado. Tudo é registrado. Tudo. O que não é registrado é crime. Calúnia, difamação. Se não existe é porque não existiu. Eu tinha amigos comunistas. Já fui até pedir para soltar, dei esporro, me desgastei. Quiseram censurar “Tributo a Martin Luther King”, disseram que era música racista, que colocava os negros contra os brancos. Fui pessoalmente saber por quê. Eu falo na cara, não fico escondido no boteco. Não tenho medo, porque não tenho telhado de vidro. Não sei botar a bunda de fora para gravar disco. Não gravo, mas também não faço. Se a imprensa não tem coragem, não publique. O que não admito mais é calúnia e difamação. Porque para mim é muito fácil enfiar porrada.

Folha – Porrada?
Simonal – É, porrada física. Me encheu o saco, bato ou mando bater. Ou não tenho condições de mandar bater?

Folha – Essa foi uma das acusações, de que você havia batido ou mandado bater no contador.
Simonal – Não mandei bater em ninguém. O cara me roubou, tinha que tomar porrada mesmo. Aliás, cometi o erro de não mandar bater. Evidentemente não mandei. Nunca vi atestado do delito. Quando fomos depor, não vi cicatriz.

Folha – Você é um injustiçado?
Simonal – Sou um injustiçado. O Brasil me deve. Me deve respeito. Nunca me respeitaram como cidadão. Não é o povo, são as autoridades que têm uma dívida moral comigo. Sou o único cara que foi exilado em casa, não precisei ir para a Inglaterra.

Folha – Sua própria classe o exilou, não?
Simonal – Não acredito. Um ou outro artista não gosta de mim, é normal. Se alguém quer me chamar para um programa, a produção não me acha. É a coisa mais fácil do mundo, mas não acha porque não quer. Fui gravar o “Casa da Bossa”, ia cantar com uma cantora baiana. Ela não quis, arrumaram outra. A outra também não quis. Aí gravei com Sandra de Sá. Exatamente na hora, o som pifou. Coincidência? Aí teve um show, a Sandra não foi mais. Cantei sozinho. No programa da Hebe Camargo a Sandra não foi, tive que dublar a minha parte e cantar a dela. Não sei se são elas, desconfio que não. São ordens não sei de quem. O cantor tem que obedecer.

Folha – A esquerda foi injusta em odiar você?
Simonal – Era a esquerda festiva, que hoje está toda morando nos EUA. Luiz Carlos Prestes não era esquerda festiva. Ele assistiu a meu show, subiu ao palco, fotografamos, sabia? Foi em 79, 80. Eu não gravei Geraldo Vandré? Gravei.

Folha – Você era contrário ou favorável ao regime militar?
Simonal – Todo mundo era contra. Aquilo durou muito tempo por incompetência. Não acredito que nenhum milico fosse favorável. Milico não foi treinado para isso. Não sou PT, mas se o Lula for presidente é “excelência”. Direita e esquerda é coisa de militar. Hoje, apesar da ditadura civil que há por aí, até nos programas de pagode todo mundo faz ginástica calistênica, todo mundo marcha. Só falta colocar farda. Me picharam porque eu era nacionalista. Sou brasileiro, quero ver meu povo feliz.

Folha – Em quem você vota?
Simonal – Fernando Henrique Cardoso. Nas duas eleições. Da outra vez, acho que estava fora do Brasil. Provavelmente votaria no Collor. Depois iria tomar um porre daqueles, de infelicidade.

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