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Matéria do JB: De volta aos verbetes: Livros oferecem diferentes leituras sobre Wilson Simonal

Ricardo Schott, Jornal do Brasil


RIO – Artista que rivalizava em êxito com Roberto Carlos no fim dos anos 60, o cantor Wilson Simonal (1939-2000), homenageado com o filme Simonal: Ninguém sabe o duro que dei, de Claudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer (em cartaz no dia 15 de maio), mesmo com todo o sucesso, foi relegado a bem mais do que o ostracismo. Após a acusação de delatar artistas de esquerda – causada pelo fato de, em 1972, ter chamado amigos policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para pressionar seu contador Rafael Viviani, a quem acusara de roubo – foi tirado dos verbetes sobre MPB, como se nunca tivesse existido. Trazê-lo de volta à literatura sobre música é o objetivo do jornalista Ricardo Alexandre, diretor de redação da revista Época e ex-editor da Bizz, e do historiador Gustavo Alonso Ferreira, que lançam em breve livros que relatam a trajetória do cantor.

Enquanto o jornalista lança a primeira biografia oficial de Simonal (ainda sem título, a ser lançada no segundo semestre pela editora Globo), Ferreira assina Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga (Record), fruto de uma tese de doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense, previsto para junho. Uma tarefa aprazível para ambos, fãs de Simonal, mas nem por isso menos trabalhosa, porque envolve um personagem cujas esferas pessoal, musical e política se entrelaçam. E que ainda suscita grandes dúvidas a serem respondidas.

– No livro, forneço matéria-prima para o leitor entender se Simonal foi ou não delator – afirma Alexandre, que entrevistou o cantor em 1998 e cuidou da produção editorial da caixa Wilson Simonal na Odeon (EMI, 2003), que revê a discografia do ídolo dos anos 60 e 70. – Progredi muito em relação ao texto que acompanhou a caixa. Ouvi mais de 60 pessoas. Durante a carreira, ele teve turmas e subturmas diferentes. Só no caso do contrato que ele fez com a Shell em 1968 (que envolvia propagandas e patrocínios de turnês) havia diversas pessoas, no Brasil e no exterior. Fui atrás do presidente da Shell na época e dos publicitários que se envolveram com ele.

Boatos sobre bombas

Apesar do lado político ser importante, Alexandre diz que é impossível deixar o que aconteceu com Simonal restrito a isso.

– É uma história que tem várias leituras. Tem a questão do racismo, o fato de ele ter sido um cara sem condições para gerir a própria carreira, algo que veio de suas origens. – lembra. – Simonal era um cara sem estrutura familiar, teve poucas pessoas para orientá-lo e estava sozinho na época que foi acusado, sem banda e trocando de gravadora.
Ferreira, por sua vez, tencionou chegar a um resultado que lembra o fio condutor de Roberto Carlos em detalhes, de Paulo César de Araújo. Seu objetivo é contar a história da MPB dos anos 60 e 70 por intermédio da trajetória de Simonal – um cantor que, antes mesmo de ganhar a pecha de dedo duro, já não contava com a simpatia das esquerdas. Em 1969, diz o autor, Simonal teria mandado uma carta ao Dops pedindo reforço policial para seu espetáculo De Cabral a Simonal. Justificou o pedido alegando ter ouvido boatos a respeito de bombas em seus shows.

– Existe o fato de ele ter sido um dos artífices de um tipo de música chamada pilantragem, movimento cujos participantes não se viam como tal, talvez por vergonha. E Simonal fazia música alegre em tempos de ditadura, ironizava os universitários e os sambistas que faziam música batendo em caixas de fósforos. Alegava que estes não sabiam fazer música para o povo – observa o autor. – Aquela época se prestava a distorções, ainda não resolvidas. Hoje fala-se que o Simonal era adesista. Mesmo os artistas exilados passaram por esse tipo de acusação. O Chico Buarque lançou em 1968 a música Bom tempo. Os tropicalistas também eram mal-vistos pelas esquerdas.

Os baianos, por sinal, foram envolvidos em boatos relacionados a Simonal, conforme lembra o filho do cantor, Wilson Simoninha.

– Falavam que o Simonal tinha entregue o Caetano e o Gil aos militares. Um absurdo, porque o próprio Caetano dava entrevistas negando isso – recorda Simoninha, que colaborou bastante com os autores. – O importante é que são livros detalhados e não são chapa-branca. É a chance de rever a história da ditadura.

Ligação tropicalista

Alexandre acrescenta que não havia um fosso entre o cantor de Sá Marina e os tropicalistas exilados.

– O título de Alegria, alegria, primeiro sucesso do Caetano, foi tirado de uma expressão criada por Simonal. Em Parque industrial, de Tom Zé, lançada em Tropicália (disco-manifesto de 1968), Gilberto Gil fala “vamos voltar à pilantragem”. Na época dos tropicalistas, Simonal já era sucesso. Ele era como a Ivete Sangalo hoje e os baianos, como o Vanguart – brinca.

Na biografia, Alexandre aproveita para destruir velhos mitos, como o de que Simonal teria sido processado por sequestro, após o entrevero com o ex-contador.

– Ele foi preso, mas não se configurou sequestro porque não tentou tirar dinheiro de ninguém. O processo partiu do estado, já que Simonal usou um órgão do governo para resolver um problema dele – relata. – Viviani foi levado para o Dops e torturado. Não se admitia a tortura, mas o expediente era visto como um mal necessário, desde que justificado por interesses de segurança nacional. Não era o caso.

O racismo não é ponto pacífico entre os autores. Alexandre acredita que, se Simonal fosse branco, talvez seu destino fosse outro. Ferreira prefere deixar o tema de lado.
– A MPB já está repleta desse discurso de “vítimas do sistema”, que às vezes até legitima projetos estéticos – defende o historiador, que prefere concentrar-se na força do artista. – Numa entrevista que ele deu ao Pasquim, bem antes da acusação, ele foi atacado pelos entrevistadores e se defendeu de tudo. Vários artistas não tomavam a mesma atitude. Ivan Lins, por exemplo, foi literalmente insultado por eles numa entrevista.

Alexandre crê que muito do que aconteceu a Simonal veio do preconceito racial.

– Aqui, é como se fosse permitido ao negro circular no mesmo ambiente dos brancos, desde que soubesse seu lugar. E a postura de Simonal, que namorava loiras e desfilava com carrões, incomodava – explica o autor, sem esconder a idolatria. – Simonal foi o maior cantor que o Brasil já teve, em termos de voz, de exploração de palco. Tudo o que relacionamos a um grande cantor, ele tinha mais do que todos.

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Simonal @ Revista Bravo

Saiu uma matéria excelente do André Nigri na Revista Bravo deste mês. É possível ler na internet: “O Ídolo Linchado”

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Hoje na Ilustrada

Nem vem que não tem

Rei do suingue nos anos 60, Wilson Simonal é relembrado em novo filme, tem principais discos relançados e vira assunto de um livro

O músico Wilson Simonal, tema de documentário e lançamentos, durante uma de suas apresentações

THIAGO NEY

DA REPORTAGEM LOCAL

Pop star nos anos 1960, Wilson Simonal foi praticamente alijado da história da música brasileira a partir de meados dos anos 1970, após ser acusado de colaborar com a ditadura. Este 2009 é o ano em que o rei do suíngue e da malandragem, intérprete de “Nem Vem Que Não Tem”, voltará a estampar não apenas discos, mas livros e filme: 2009 é o “ano Simonal”.
Morto em 25 de junho de 2000, aos 62 anos, em decorrência de uma doença hepática crônica, Simonal é:
1) Tema de “Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, documentário de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal;
2) motivo para o relançamento da caixa “Wilson Simonal na Odeon: 1961-1971″ e para o lançamento de uma coletânea da Som Livre;
3) fio condutor de uma tese de doutorado que será lançada pela editora Record (leia ao lado).
Mais: Simonal ganhará, finalmente, uma extensa e detalhada biografia, na qual o autor, Ricardo Alexandre, 34, também diretor de Redação da “Época São Paulo”, afirma desvelar as polêmicas e a complexidade da vida do cantor.
O livro de Alexandre, ainda sem título definitivo, sairá neste semestre, pela editora Globo. É apoiado por entrevistas com gente como Eumir Deodato e César Camargo Mariano e por pesquisa em arquivos jornalísticos e judiciais.
“Ninguém ainda conheceu todo o panorama do Simonal. Conhecem pedaços do Simonal. O próprio Simonal tinha uma visão parcial de sua história. Ele era muito complexo e controverso”, afirma o autor.
Segundo Alexandre, a história do cantor, a partir do final dos anos 1960, é entremeada por situações e episódios aparentemente desconexos, mas que se explicam e ganham mais sentido quando analisados como um todo.
Por exemplo: em 1969, Simonal assinou contrato de patrocínio com a Shell -o maior até então no Brasil. “Não dá para entender o que aconteceu com o contador sem levar em consideração as consequências desse contrato com a Shell.”
O contador, que Simonal acreditava ter desviado dinheiro, é Raphael Viviani. Foi levado pelo cantor e policiais civis ao Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e, ali, espancado. Na sequência, o próprio Simonal foi detido por 12 dias e, em sentença de 1974 do juiz João de Deus Lacerda Menna Barreto, apontado como “informante do Dops” (o caso foi revelado pelo repórter Mário Magalhães na Folha, em 2000). A partir de então, o cantor foi praticamente expurgado do circuito da música brasileira e da imprensa.
Segundo Alexandre, Simonal chegou a dizer que tinha sido “vítima de uma conspiração de publicitários, que queriam derrubá-lo porque ele seria perigoso, uma versão que é muito simplista”.

Dedo-duro?
Alexandre diz que, a partir de fatos apresentados no livro, o leitor consegue perceber se Simonal era dedo-duro ou não.
“Algo ínfimo foi gerando boatos e crescendo como bola de neve. Ele não era um cara politizado, com grandes dilemas.”
(A história de Simonal, na infância e na adolescência, é de “humilhação, de resignação”, diz o autor. Nasceu em favela no Leblon, com os pais desquitados. Brincava com os filhos dos patrões de sua mãe.)
“Mas ele achava que o golpe de 1964 tinha de ter ocorrido. Mas entre ser simpatizante e delator vai um abismo. E ele cantou na primeira convenção do MDB”, lembra Alexandre.
saiba mais

Cantor ganha documentário e compilação

DA REPORTAGEM LOCAL

Além de biografia, Wilson Simonal (1938-2000) é tema de “Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, elogiado documentário de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal que já foi exibido em mostras e que chega ao circuito comercial em 15 de maio.
Um dos atrativos do filme é a localização do contador Raphael Viviani, espancado por Simonal em um episódio que impulsionou as acusações de que o cantor fora informante do regime militar.
A EMI recoloca nas lojas os nove CDs de “Wilson Simonal na Odeon: 1961-1971″, lançados em 2004. A caixa virá com um disco “perdido” de Simonal, chamado “México-70″.
“É um disco que foi descoberto depois que a caixa saiu”, explica Max de Castro, 35, filho do cantor. “Nunca foi lançado no Brasil. Tem versões de “Rain Drops Keep Falling on My Head”, “Aquarius” [do musical "Hair'], que saíram apenas nesse disco, nem sabíamos que ele tinha gravado.”
Castro está envolvido em projeto da gravadora Som Livre, de lançar uma compilação com faixas de Simonal. “Já fizemos uma pré-seleção das músicas. Será um CD duplo, cobrindo toda a trajetória dele.”
Ainda de acordo com Castro, os produtores do espetáculo “Tom e Vinicius” estão interessado em criar um musical sobre a vida do cantor de “Meu Limão, Meu Limoeiro”.
Além disso, diz Castro, Simonal é tema de uma tese de doutorado que será lançada em livro pela editora Record. “É um livro sobre história, mas centrado no caso do Simonal.”
(TN)

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